Sobre o entusiasmo
Será que tudo precisa mesmo se tornar chato e banal?
É agosto de 2025 e estou sentada numa encosta de pedras de frente para o mar. É inverno, e mesmo assim o sol avermelha minhas pernas. Sinto o vento bagunçando meus cabelos e ouço o mar, indo e voltando, puxando e enchendo, se atirando contra as pedras.
Não fazia silêncio assim há muito tempo.
Passo alguns minutos sem pensar em nada.
Inevitavelmente, me vejo de cara com a pergunta que me assombra toda a viagem. O motivo pelo qual decidi tirar aquelas férias. A coisa em que evitei pensar nos dois últimos anos, enquanto estava ocupada demais trabalhando.
O que é que eu estou fazendo da minha vida?
Naquele mesmo dia, mais cedo, havia recebido uma DM de uma pessoa nada próxima: “você não gosta do seu emprego, vai por mim”. “Que falta de noção”, pensei. “Quem diz isso assim sem intimidade alguma? É claro que eu gosto do meu emprego, é o melhor emprego que já tive! … É o melhor salário que já tive", me corrijo.
E ali, naquele momento, estou pensando naquela mensagem. Não tem nada de errado com o meu emprego, afinal. As pessoas são gentis, em sua maioria. Minha chefe não é uma maluca tóxica, a empresa não tem posicionamentos esquisitos, sou registrada certinho e ganho bônus. E sabe, parece até que estou ficando boa nisso. Acho que a chefe da minha chefe notou o meu progresso. Como eu poderia não gostar do meu emprego?
Levo mais alguns dias para enxergar com clareza o que faltava. Não no meu emprego, mas na minha vida, como um todo. Entusiasmo.
“Entusiasmo”, do grego antigo enthousiasmós, significa “estar com um deus dentro” ou “ser tomado por uma inspiração divina”.
Havia passado os dois últimos anos sem pensar muito. Após uma tentativa de ser livre, volto para a minha cela de pessoa domesticada e digo pra mim mesma: “Apenas faça o que tem que ser feito. Não fique se questionando muito. É o que todo mundo faz.”
Não pensar muito até que tinha dado certo. Por anos, me perguntei quando me sentiria estável, segura. E aquele momento finalmente tinha chegado. Parecia tudo organizado, nos conformes. Em três anos, eu poderia ter um salário bom de verdade (não apenas seguro). Ao meu redor, as garotas de 27 estavam todas fazendo viagens para a Europa e sendo pedidas em casamento. Já estava ficando batido. Todas faziam a mesma coisa. Entravam na empresa, se apaixonavam e em dois anos estavam tirando férias na Sicília e postando um anel de noivado. Eu poderia ser a próxima, não poderia?
Talvez eu estivesse mais perto do que jamais estive do que eu considerava uma “vida boa”. E não sentia um pingo de entusiasmo.
Pelo dicionário, o entusiasmo pode ser definido como um estado de exaltação criadora; uma expressão profunda do sentimento de admiração, amor e paixão; um vigor natural ou místico que leva à criação; a sensação de prazer diante de algo extraordinário e, por fim, grande contentamento ou júbilo.
Eu me sentia apática. Me importava pouco com as pessoas e menos ainda comigo mesma. Nada ali me dava a sensação de ser parte constituinte da minha identidade e não sentia que estava criando nada com que eu realmente me importasse. Estava apenas fazendo o que tinha que ser feito.
E naquela viagem de férias, em um dos múltiplos dias em que fiquei sentada na areia, contemplando o mar em silêncio, decidi que precisava fazer algo sobre isso. “Ainda não cheguei nos 30. Ainda posso errar. Tenho que tentar, pelo menos mais uma vez. É arriscado, mas não posso passar o resto da minha vida sentindo esse gosto de mingau morno".
Talvez o meu erro seja que frequentemente complemento coisas que são temporárias com “pro resto da minha vida”. Talvez eu devesse apenas aprender a lidar com o tédio.
Mas não foi o que eu fiz. Queria me sentir entusiasmada pela vida. Queria me sentir viva! Pedi demissão, me mudei (just for the sake of it) e voltei a empreender. E os primeiros meses foram, de fato, cheios de entusiasmo.
Começar algo novo é sempre inebriante. É gostoso, é intrigante. Coisas novas nos fazem querer descobrir, explorar. É como se sentir livre.
Mas esse sentimento acaba. E aí fica só a disciplina, ou a necessidade dela. Tenho percebido que o entusiasmo vem em ondas. Momentos de êxtase e outros de puro desespero, medo e às vezes, tédio.
É engano meu pensar que poderia encontrar algo que me entusiasmasse pelo resto da vida? Será que tudo, em algum ponto, começa a se tornar chato e banal? Existe saída para a monotonia que não seja se colocar em situações de risco?
Eu só queria sentir. Queria ser atravessada pela expressão divina. Estive arriscando tudo por isso.
Talvez eu tenha mesmo que aprender a lidar com o tédio.



